terça-feira, 10 de novembro de 2009

Naquela noite

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No bar,
Um alívio para a solidão,
Mais um copo contra a compaixão pedi.
Corroído pela angústia, uma dose de pinga refrescava.

Veio a mim uma jovem,
Insossa para quem não podia enxergar
Toda sua inocência vulgar.
Simplesmente, Bárbara.

Cabelos ruivos ao vento,
Olhar pneumático e tentador,
Boca volumosa e quente,
Decote chamativo e encorajador.

A cada gole o encanto crescia,
2 garrafas de Aguardente Santa Volúpia.
Já estava bêbado para a partida...
Não sem a sua companhia.

O que aconteceu depois:
A bebida me censurou.
O que restou da memória entorpecida:
O cheiro do cigarro e perfume que trazia,
A minha casa roubada e destruída,
E uma dor de cabeça filha da **** durante dias.

Gabriel T.

sábado, 7 de novembro de 2009

Observas tu no espelho

Bons tempos aqueles,
A fumaça do baseado te elevava,
O amor ainda reluzia e em dor, ainda sorria.
Agora só te permites vagar em seu casulo;
Seu reflexo, o limite. Sua vida, um ponto esperando o final.

Sujo, vago, seco, duro;
Sinto-te anestesiado,
Imóvel, inerte, limitado;
Encalhado ao óbvio, impossibilitado do além.
Pobre de ti, a fuligem das fábricas entrevaram tuas engrenagens!

Observas tu,
Como se o vazio do mundo te tomasse,
Adentrasse tua alma agora efusiva,
Tornaste o que condenavas,
Vítima da razão, escravo da visão.

Permita-te se renovar sobretudo.
Encara-te no espelho, e depois desafie o mundo!

domingo, 1 de novembro de 2009

"Inexpressão"

Inexpressão

Pensamentos caem em um fluxo acelerado e inconstante,
A razão sobrevoa por meus sentimentos e sensações,
Verdades se deslocam, se misturam, se invertem, se negam.
O ar inspirado já não é límpido e inocente.
Todo tipo de disfarce se extirpe em prol da verdade inconsequente.
O poeta ametaforado nem pode mais fazer sua arte (se é que ele já pôde!).

Tudo parece tão cético, tão óbvio, tão programado
Tudo parece tão natural, tão chato, tão repetitivo...
Falta drama, paixão, ilusão, emoção, tesão,
Falta alegria, arrepio, encantamento, tentação,
Falta tudo que nos faz vivo,
Como queria sentir dor!

A causalidade foi desvendada,
O futuro é produto de um cálculo exato.
O sexo, simples exteriorização de movimentos mecânicos.
O sentido da vida se limita ao nascer e morrer.
A doença, o fato que mais nos aproxima da vida.
A melancolia das palavras não pode ser sentida,
O desabafo aparente não passa de uma demonstração do óbvio.


Gabriel T.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Essa tristeza que te consumiu

Essa tristeza que te consumiu,
Como o fato que corroeu o previsível,
Como a fome que mastigou o miserável.

Essa alma que se fez vendida,
Como uma sádico que se fez mazoquista,
Como um piegas que se fez calculista.

Essa fúria que te fez perversa,
Como um sábio que se fez monstro,
Como um traído que se fez assassino.

Trocaste a candura pelo seu revés,
Em sua luta, confundiste as mãos pelos pés,
Não voltes ao que eras,
Mas não permitas ser como estás.

Gabriel T.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Visões de um "escrevedoreco" - Parte 1

Luz, produtora de sombra. Como todo ato cria também malgrado. E se permitíssemos viver dessa sombra por um momento, e não simplesmente negá-la? E se conseguíssemos enxergar algo de bom na boca ou no chefe do Inferno? Para mim, soa ridícula a idéia maniqueísta de Céu e Inferno pelo simples fato de que ninguém é tão bom ou mau o suficiente para se salvar ou penar totalmente. Caso houvesse um meio-termo, que ainda seria idealizado, nesse lugar gostaria de me encontrar, apesar de ainda preferir a linda idéia da reencarnação. O meio-termo, que não ouso impor-lhe nome, (e que dificilmente me agrada em outros casos), permitir-nos-ia satisfazer com o bem, e aprender com o erro, com o sofrimento e por que não com o pecado!? Se escondes tua sombra, talvez percas o melhor da diversão e da sabedoria:

Oh sombra,
Encantaste-me tardiamente,
Agora quero abusar-te.
Errante que sou,
Difícil me faz o equilíbrio.

Nos diabos,
Autoridade, vontade,
Firmeza, magia,
No inferno do cotidiano,
Aprendizado.

Como toda erva, o obscuro e o pecado têm seu lado B. Há tempos atrás, o “mau” me parecia meramente mal. Agora arrisco tornar-me refém do obscuro. Daí a necessidade do equilíbrio. O obscuro se evidenciado totalmente perde sua magia e benefícios e existem coisas que realmente devem ser escondidas:

“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...” (Dostoiévski)

Quando digo do obscuro e da sombra pessoal não significa necessariamente nosso lado tido como prejudicial, maléfico, mas tudo aquilo que parece intrínseco e inevitável, mas que é mascarado, inutilizado, reprimido por nós mesmos ao invés de buscarmos lidar com isso:

A sombra – Pitty

Pra quê dissimular?
Se ela me segue aonde quer que eu vá?
Melhor encarar
E aprender com ela a caminhar
Não vou mais negar
Por todo caminho, minha sombra está
Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim
Isso nunca se desfaz
E quanto a desejo, não há paz
(...)


Obs: Quando comecei a escrever esse pensamento, não parti da música “ A sombra” da Pitty, mas ao desenvolvê-lo percebi que a influência desta estava sendo determinante. Permite-me então deixar essa influência rolar, evidenciada mais uma vez pelo trecho de Dostoiévski que também serviu a música 8 ou 80 da mesma. Mesmo com o medo de ter perdido minha identidade, acredito que boas referências são sempre válidas, e me vejo totalmente no que escrevi.
To Be Continued... xD
Gabriel T.